Acadêmicos ou Algozes? O Abuso de Poder que Silencia Estudantes!



Era para ser uma noite de celebração. Eu era jovem  e havia acabado de apresentar um trabalho em um congresso, resultado de meses de pesquisa, e minhas professoras, figuras respeitadas do curso de uma universidade privada em Canoas, RS, me convidaram para jantar. O convite, inicialmente, parecia um gesto cordial, quase um ritual acadêmico. Mas naquela noite, o que deveria ser motivo de orgulho se transformou no início de um pesadelo.

Cheguei ao hotel para buscá-las. O ar estava pesado, e algo me dizia que aquela noite seria diferente. Ignorei o incômodo e seguimos para o restaurante. No início, tudo parecia dentro do esperado, mas logo percebi que eu havia me tornado o protagonista involuntário de um jogo perverso.

A conversa, que deveria girar em torno de ideias e conhecimento, tomou um rumo desconfortável. Com risos ácidos, começaram a relatar fofocas do meio acadêmico: histórias de orientadores que se envolviam com orientandos, escândalos tratados com uma leveza cruel. Em um momento, falaram de um professor de História Antiga, homossexual, que supostamente havia se relacionado com um convidado espanhol durante o evento. Cada palavra vinha carregada de deboche, como se as vidas alheias fossem nada mais do que combustível para suas piadas.

Tentei me manter distante, calado, até que a atenção se voltou para mim. A professora que liderava a conversa, uma mulher que se autointitulava “livre e liberal”, começou a me fazer perguntas pessoais. Primeiro, sobre minha mulher. Depois, sobre minha vida íntima. Seu tom era jocoso, invasivo.

“Você nunca traiu sua mulher?”, perguntou, com um sorriso provocador. Antes que eu pudesse responder, ela continuou: “Se você acredita em fidelidade, você é um idiota.”

As risadas foram crescendo ao meu redor. Eu, paralisado, tentava me manter calmo. Mas ela insistia. “Vai me dizer que nunca trepou fora de casa? Nunca quis experimentar algo diferente?”

A cada palavra, o constrangimento aumentava. Meu rosto ardia, minha paciência se esvaía. Até que, finalmente, respirei fundo e rebati: “Se eu fosse trair, com certeza seria com uma mulher da minha idade.”

O silêncio que se seguiu foi ensurdecedor. Por um breve momento, senti que tinha conseguido pôr um fim àquilo. Mas estava enganado. Ela me olhou, com um sorriso venenoso, e disparou: “Ah, então é isso. Você é um gay enrustido!”

O riso voltou à mesa, mas dentro de mim, algo havia se quebrado. Não pela acusação em si – não tenho qualquer problema com orientações diferentes da minha, nem com quem busca sua felicidade onde quer que esteja. Mas a maneira como ela usava aquilo para me desmoralizar, para me ferir, era desagradável.

Aquela noite não terminou no restaurante. Ela havia decidido que eu seria seu alvo. Durante o restante do congresso, a professora continuou me humilhando em público, chamando-me de “gay enrustido” e zombando de mim diante de colegas e outros professores.

De volta à universidade, o cenário piorou. Ela começou a espalhar boatos, reunindo alunos contra mim. Aquilo não era apenas uma questão pessoal – era uma campanha de destruição. Ela conseguiu transformar meu ambiente acadêmico em um campo de batalha. Fui isolado por muitos colegas, que acreditaram em suas palavras venenosas, e precisei enfrentar olhares e sussurros nos corredores.

Pior ainda foi ter que cursar disciplinas com ela. Na sala de aula, o abuso de poder era evidente. Fazia questão de me humilhar, de usar cada oportunidade para lançar indiretas ou comentários sarcásticos. Chegou a afirmar para outros professores que faria de tudo para impedir minha carreira, declarando que eu era “persona non grata” no curso.

Houve momentos em que pensei em desistir. A pressão, o isolamento, a constante sensação de estar sendo observado e julgado... Tudo isso me consumia. Mas algo dentro de mim me impediu de ceder. Recusei-me a deixar que ela vencesse.

Concluí minha graduação, mas a um custo alto. Perdi a chance de construir laços significativos com colegas, vi minha confiança abalada e carreguei o peso de uma experiência marcada por perseguições e humilhações.

Hoje, sigo na profissão que escolhi, apesar das cicatrizes. O que vivi me ensinou uma verdade dura: o abuso de poder no meio acadêmico não tem gênero. Homens e mulheres podem usar suas posições para manipular, controlar e destruir. Não são apenas professores que assediam; professoras também o fazem, mascarando seus atos sob uma falsa ideia de autoridade e liberdade.

Minha história é uma lembrança de que o silêncio e a omissão diante do abuso são cúmplices do sofrimento. Luto para que outros estudantes nunca precisem passar por este caminho, para que possam encontrar um ambiente de respeito e aprendizado. E, apesar de tudo, mantenho minha esperança de que o conhecimento – aquele que realmente transforma – um dia seja o centro da vida acadêmica, e não o poder que destrói.

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