Um Olhar sobre a Solidão e a Aparência no Tempo da Pós-Modernidade.
Vivemos tempos paradoxais. Em uma era onde
a conexão é instantânea e o alcance de um toque no celular nos coloca diante do
mundo inteiro, nunca estivemos tão distantes de nós mesmos e tão próximos do
abismo do outro. Ser notado, ser visto, tornar-se alguém que ocupa um espaço –
nem que seja um pequeno quadrado de atenção virtual – é a obsessão silenciosa
que pulsa sob as veias da pós-modernidade. Mas o que somos, afinal, senão
corpos ansiosos por aplausos em um teatro onde o espetáculo nunca cessa?
O capitalismo selvagem, voraz e impiedoso,
nos prometeu felicidade como um prêmio inalcançável, sempre adiado para a
próxima compra, o próximo check-in ou a próxima roupa de marca que fará alguém
– quem sabe – olhar para nós com a devida reverência. Assim, transformamos
carros, gadgets, passagens aéreas e pulseiras Gucci em amuletos modernos,
pendurados na alma vazia como talismãs de aceitação social. Nesse
cenário, ser alguém tornou-se menos sobre ser e
mais sobre ter. Quanto maior a quantidade de símbolos de status,
maior, supomos, é o espaço que ocupamos nos olhos alheios. O que não nos
contam, porém, é que por trás de cada pulseira ou etiqueta reluzente há uma
solidão que não se apaga.
Recentemente, essa epifania me pegou de
surpresa em uma fila para um bondinho, sob o céu da Itália. Era um brasileiro –
um irmão pátrio – exibindo, entre gestos ruidosos e fala alta turvada por
álcool, um desfile de marcas: a pulseira Gucci, o chinelinho Versace
desgastado. Parecia querer provar alguma coisa a um mundo invisível que, de
fato, estava ali, na figura de centenas de turistas impacientes. "Olha
feio para mim, mas não tem isso aqui!" gritava ele, estendendo o
braço como quem empunha uma lança sagrada. Havia algo de trágico e cômico
naquela cena. O peso de precisar ser percebido havia se transformado em uma
súplica involuntária por reconhecimento. E o mais irônico? Ele, ao olhar minha
aparência "sulista", acreditou que eu não compreenderia suas palavras
cuspidas em português – um idioma que, ali, uniu e dividiu em um só golpe.
Aquele encontro – breve e desnecessário –
me fez refletir sobre a solidão que nos cerca. Sobre como nos afogamos nas
águas turvas das exigências alheias, remando com remédios e anestesiando nossas
feridas com álcool, ansiolíticos e promessas vazias de amor eterno. Afinal, o
amor também virou um produto: um delivery emocional que precisa chegar na hora
certa, com a embalagem perfeita e sem defeitos. Amar passou a ser menos um
encontro de almas e mais uma transação onde as expectativas são altas e o estoque
é sempre limitado.
Vivemos, portanto, sob a ditadura do
"ser tudo" e "ter mais" – um sistema onde a linha entre
triunfo e fracasso é desenhada a lápis e apagada ao menor deslize. Cada roupa
que vestimos, cada palavra que dizemos, cada silêncio que mantemos carrega
consigo uma cobrança invisível, um dedo em riste que pergunta sem
piedade: "É só isso que você tem a oferecer?" O
"não" não é opção.
E então, o que resta? Um mundo de gente
esgotada, carregando o peso de suas marcas como escudos, incapazes de
reconhecer que, talvez, não precisemos de mais pulseiras para sermos vistos. O
vazio, afinal, não se cobre com etiquetas. Ele pede algo mais raro: uma pausa,
uma respiração profunda e uma reconciliação com aquilo que somos – despidos do
que esperam que sejamos.
Naquele dia, sob o céu italiano, diante de
um homem e suas vestimentas que gritavam mais alto que ele, compreendi uma
pequena verdade: ser percebido não é o mesmo que ser amado. Talvez
o maior ato de resistência neste mundo seja ousar não ser "tudo", mas
apenas ser. E ser, de fato, já é muito.



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