Os Arquitetos do Caos: Trump, Bolsonaro e o Evangelho da Dominação

 



O que une Donald Trump e Jair Bolsonaro, dois líderes marcados pela crueldade, discursos de ódio e desprezo pelos mais vulneráveis? A resposta está no apoio fervoroso de uma base evangélica que, sob o manto da fé, justifica o injustificável. Não há outro termo: essa aliança entre religião e poder não é apenas hipócrita, mas também profundamente perversa.

Nos Estados Unidos, Trump, um bilionário narcisista que simboliza tudo o que há de mais distante dos valores cristãos, foi elevado ao status de “salvador da nação”. Líderes evangélicos o proclamaram como o “escolhido de Deus”, enquanto ele abraçava abertamente políticas racistas e xenófobas. Jerry Falwell Jr., por exemplo, não hesitou em defender Trump, mesmo após o vazamento de áudios em que ele fazia comentários misóginos e repulsivos. “Deus não escolhe líderes perfeitos”, disseram. Mas Deus, ao que parece, estaria confortável em escolher alguém que constrói muros para separar famílias, que prende crianças em jaulas e que incendeia divisões raciais no país.

No Brasil, o quadro é ainda mais grotesco. Bolsonaro, um homem que exaltou torturadores da ditadura e declarou que preferia um filho morto a um filho gay, foi recebido de braços abertos por líderes evangélicos. Eles o colocaram em um pedestal como defensor da família, mesmo enquanto ele zombava de mulheres, indígenas, negros e qualquer um que ousasse se opor ao seu governo. E quem estava ao lado dele? Olavo de Carvalho, o autointitulado "filósofo" que despejou teorias conspiratórias e veneno ideológico sobre o país, ajudando a consolidar um discurso que misturava conservadorismo religioso com ódio e ignorância.

Nos bastidores do poder, enquanto Donald Trump e Jair Bolsonaro conquistavam o apoio incondicional de evangélicos para reforçar seus discursos autoritários, operavam estrategistas que encarnavam a essência do cinismo político: Olavo de Carvalho e Steve Bannon. Esses dois homens, cada um em seu contexto, foram muito mais do que conselheiros. Eles foram os engenheiros de uma narrativa que usou a fé como arma e o ódio como ferramenta, moldando governos que não só ignoraram, mas deliberadamente atacaram os princípios básicos de dignidade, igualdade e justiça.

Nos Estados Unidos, Steve Bannon se destacou como o estrategista por trás da campanha de Trump. Conhecido por sua visão extremista e pelo uso de táticas baseadas no medo e na polarização, ele arquitetou um discurso que apelava às inseguranças da classe média branca americana, utilizando temas como imigração, supremacia racial e nacionalismo cristão. Seu mantra era simples, mas devastador: "Dividir para conquistar". Bannon viu no apoio dos evangélicos uma oportunidade de ouro, promovendo Trump como o “salvador” dos valores cristãos, enquanto ele mesmo confessava que suas ações não tinham nada a ver com religião, mas sim com controle cultural.

Do outro lado do hemisfério, no Brasil, Olavo de Carvalho desempenhou um papel semelhante no governo Bolsonaro. Embora se apresentasse como filósofo, Olavo era, na verdade, um manipulador ideológico que transformava conspirações em dogmas. Ele não só legitimou, mas incentivou a guerra cultural que se espalhou como um vírus nas bases evangélicas brasileiras, moldando uma narrativa em que Bolsonaro era o “escolhido de Deus” para salvar o Brasil de um inimigo invisível e inventado. O discurso de Olavo, assim como o de Bannon, transformava a fé em combustível para o autoritarismo, onde o medo e a polarização eram os pilares do controle.

O paralelo entre Bannon e Olavo é inegável: ambos transformaram líderes populistas em salvadores messiânicos, alavancaram a fé religiosa para consolidar seu discurso de ódio e dividiram sociedades inteiras em um jogo cínico de “nós contra eles”. Enquanto Bannon exportava sua estratégia de guerra cultural para o mundo, Olavo foi seu eco tropical, adaptando essas táticas ao contexto brasileiro. O resultado foi o mesmo: um campo fértil para o autoritarismo crescer, enraizado no fanatismo e na cegueira coletiva.

E o que dizer dos evangélicos que, em troca de poder e privilégios, abraçaram esse discurso? Nos púlpitos, falava-se de um “projeto de Deus”, enquanto se ignoravam as políticas que ampliaram a desigualdade, a fome e a destruição ambiental. Não faltaram declarações absurdas, como a de líderes que diziam que “Deus estava do lado de Bolsonaro” ou que quem não o apoiasse seria um inimigo do cristianismo. Isso, claro, enquanto o governo desmontava políticas públicas e atacava minorias com uma violência institucionalizada sem precedentes.

Nos Estados Unidos, Trump usou a Bíblia como um mero acessório, posando para fotos após ordenar que manifestantes pacíficos fossem dispersados com gás lacrimogêneo. No Brasil, Bolsonaro segurou uma Bíblia em comícios, enquanto destilava ódio contra nordestinos, jornalistas e mulheres. Esses gestos, vazios e cínicos, foram recebidos com aplausos por uma massa evangélica que não parece se incomodar com a incoerência moral flagrante de seus líderes.

Mas isso não é hipocrisia. É maldade. É o uso consciente e calculado da fé como ferramenta de dominação, alienação e violência. Os evangélicos que apoiaram Trump e Bolsonaro não o fizeram por ignorância — fizeram por conveniência. Por dinheiro, por poder, por controle. Por um projeto que nada tem a ver com espiritualidade e tudo a ver com autoritarismo.

Ao final, o que resta é um retrato sombrio de uma religião instrumentalizada para os fins mais vis. O discurso de “salvar a família” serve apenas para justificar a exclusão e a perseguição. A defesa de “valores cristãos” não passa de um pretexto para implementar agendas reacionárias que aprofundam o abismo social e a injustiça. Não há nada de sagrado nisso. Há, sim, perversidade, manipulação e um desejo insaciável de poder.

O paralelo entre os evangélicos americanos e brasileiros é claro: ambos abraçaram líderes que representam o oposto do que deveriam defender. Ambos trocaram a fé por uma agenda de ódio e exclusão. E ambos estão dispostos a destruir o que for necessário para manter sua posição de domínio. Não é o Evangelho que está em jogo aqui. É um projeto de poder disfarçado de religião, tão sujo e cruel quanto os homens que o conduzem.

É uma vergonha indescritível que alguém se professe cristão enquanto sustenta posições tão diabólicas e contrárias aos princípios que dizem seguir. Que cristianismo é esse que exalta o ódio, a exclusão e o preconceito, enquanto Jesus pregava o amor incondicional, a empatia pelos marginalizados e a justiça? Vestem-se com a túnica da fé, mas suas ações ecoam o desespero de quem já não distingue Deus de um projeto de poder. Ao usarem a cruz como arma e o altar como palanque, não só traem os ensinamentos de Cristo, como também desnudam o abismo moral que habitam. É a mais cruel das hipocrisias: mascarar a perversidade com palavras de salvação, enquanto se alimenta a fome por controle, ódio e destruição. Raça de víboras que pregam amor, mas espalham ódio; que clamam em nome de Deus, mas agem como discípulos do caos — como escaparão do juízo que tanto proclamam para os outros?"

Comentários

Postagens mais visitadas