Epílogo do Fim: A Morte Não Redime Quem Viveu Para Ferir.
Na
morte, todo mundo vira santo. O velório se transforma em palco, e aqueles que,
em vida, foram algozes, tornam-se mártires em narrativas açucaradas. Mas a
verdade não morre com quem parte. A verdade resiste. E a verdade precisa ser
dita.
Em
um momento da vida, conheci um homem que viveu única e exclusivamente para si.
Durante toda a sua existência, não construiu laços — apenas os destruiu em prol
de sua própria felicidade. Teve uma família numerosa, uma esposa que acreditava
em promessas, filhos que esperavam presença, mas o que receberam foi o desfavor.
Em determinado momento, ele simplesmente partiu, deixando para trás um rastro
de traições e cicatrizes. A mulher que um dia acreditou em seu amor, jamais
conseguiu se recuperar da violência emocional que sofreu. Nunca mais amou.
Nunca mais se permitiu confiar.
Era
mestre da enganação, um artista da lisonja, hábil no jogo das palavras e na
arte do elogio calculado. Com sua fala envolvente, angariou muitos
"amigos", mas todos utilitários, peças de um tabuleiro onde a única
regra era o proveito próprio. O que restou dessas relações? Apenas memórias
efêmeras de festas e bebedeiras descompromissadas, celebrações vazias que
ignoravam o preço alto pago pelas vidas esquecidas no rastro de sua existência.
Mas
nem as taças erguidas nem as noites regadas a excessos foram suficientes para
saciar seu apetite voraz. Sempre quis mais. Sempre tomou mais. E onde havia
fragilidade, via oportunidade. Aproveitou-se de mulheres em luto, destroçadas
pela dor. De mulheres castigadas pelo preconceito, marcadas por uma vida de
humilhações. De mulheres exauridas pela pobreza, esmagadas pelo peso do mundo.
De mulheres moídas pela solidão, famintas por um olhar de afeto.
A
nenhuma delas perdoou. De todas arrancou um pedaço, sem culpa, sem hesitação.
Roubou-lhes a confiança, a dignidade, o brilho nos olhos. Prometeu amor onde só
havia engano. Ofereceu braços que logo se desfizeram no vazio. Fez do sexo um
jogo de mentiras, e de cada nova conquista, uma nova vítima. Onde tudo sempre
acabava em uma piadinha vulgar e sem graça.
E
assim seguiu, insaciável, devorando vidas, deixando apenas rastros de dor onde
jurava entregar paixão.
E
ele? Seguiu seu caminho, colecionando esposas como troféus, descartando cada
uma delas após esgotar sua utilidade. Em todas as suas relações, o mesmo modus
operandi: infidelidade constante, mentiras ininterruptas, abuso psicológico. Um
predador afetivo, sempre em busca de uma nova vítima. E quando, nos últimos
anos, casou-se novamente e teve outro filho, manteve intacta sua fórmula
perversa: traição, engano, manipulação.
Mas
o legado da destruição não se limitou às esposas. Uma de suas filhas tornou-se
peça-chave em seu jogo de exploração. Primeiro, a contratou, a preparou, mascarando
o vínculo familiar com um contrato de trabalho. Mas o que parecia uma
oportunidade logo se revelou um fardo insuportável: nos últimos anos foi sobrecarregada,
esgotada, empurrada para um labirinto de obrigações criadas para sustentar não
apenas a empresa, mas o próprio pai. E ele, com o cinismo de sempre, fazia
questão de fingir que ainda tinha alguma relevância ali, inventando funções
vazias para si mesmo, apenas para preservar uma ilusão de dignidade que não se
ocultava pela sua constante embriagues.
Dignidade
de fato, ele nunca teve.
Enquanto
a filha se desgastava até a exaustão, sem sequer desfrutar de férias em paz,
ele permitia que a madrasta a subjugasse com críticas cruéis. Enquanto isso,
mantinha-se distante e indiferente, entregando-se a festas, churrascos e
passeios de lancha — luxos bancados pelo esforço incansável de quem ele
explorava sem remorso. Durante cinco anos, não moveu um dedo para ajudá-la. Mas
agora, no abismo, deixa não um legado, mas uma dívida financeira cruel. Um
fardo que pesa sobre quem já carregava o peso de sua existência.
E,
como um último ato perverso, em seus momentos finais, faz um pedido. Não um
pedido de perdão. Não uma palavra de reconhecimento para as pessoas que fez
sofrer. Mas uma exigência: que seus filhos renunciassem a qualquer direito
sobre os bens que ele deixou, anulando-os em sua existência em favor da sua
atual família.
Até
o último momento, permaneceu fiel a si mesmo.
Mas
agora, que venha o teatro macabro. Que venham os discursos vazios, os elogios
póstumos, a tentativa constrangedora de limpar uma história escrita com as lagrimas
perdidas no tempo das muitas mulheres que cercaram esta existência.
É
fato, na morte todos viram santos. Mas há verdades que nem a terra consegue embeber.
Nos momentos derradeiros, é a filha a quem ele negou o voo, que lhe segura a
mão. No vale da sombra e da morte, quando todos se afastam, quando o brilho das
festas se apaga e as vozes que antes o adulavam se calam, é ela quem ficou. E,
em seu derradeiro ato de amor, guiou-o pela escuridão até os umbrais do adeus.
E
mesmo assim, nem na escuridão, ele percebe a luz nos olhos de quem o amou.
Não
agradeceu. Não reconheceu. Não viu e nem percebeu.
Gastou
suas últimas moedas da mesma forma que gastou todas as anteriores: imerso em si
mesmo, contando seus próprios pensamentos.
Transformou
toda a trama em um espetáculo sobre si mesmo, sobre seus desejos e vontades,
sobre a ânsia interminável de saciar o insaciável. Uma vida que jamais
encontrou sentido em si, apenas foi consumida pelos próprios instintos.



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