O Gaúcho do Século XXI: Um Macho Frágil Fantasiado de Guerreiro
Viver no Rio Grande do Sul é um peso insuportável para quem presa por um mínimo de civilidade. Não estou falando da violência que está nas ruas, nos índices criminais, ou nas manchetes dos jornais. Eu me refiro na que está em cada olhar desconfiado, em cada fala agressiva, em cada gesto ríspido. Está na forma como se dirige, como se pisa na calçada, como se entra em um ambiente público pronto para o confronto. É um estado de espírito doentio, uma cultura entranhada que valoriza a brutalidade e despreza a gentileza. É uma verdadeira doença social.
Aqui, a violência é tão comum que passa despercebida. Ela está na forma como um estranho te encara no trânsito, como um cliente trata um atendente, como um professor é desrespeitado em sala de aula. É um estado onde respeito é confundido com medo, onde autoridade é imposta na base do grito, onde força bruta é sinal de caráter. Um ambiente onde qualquer traço de suavidade é pisoteado, porque ser cordial, ser educado, ser razoável é sinônimo de fraqueza.
Ser "macho" no Rio Grande do Sul não é ser um homem íntegro, que honra compromissos, que respeita sua companheira ou companheiro, que assume responsabilidades, que tem ética nos negócios, que sabe os limites do outro. Não. Aqui, ser "macho" é subjugar. É precisar se impor pelo medo, pela brutalidade, pela ameaça. O gaúcho mítico que tantos romantizam—o homem do campo, resiliente, que conhece o tempo e os animais, que sabe que a vida é dura e aprende com ela—não existe mais. Foi substituído por uma caricatura grotesca, uma fera irracional que veste pilcha uma vez por ano como um cosplay de tradição e celebra uma revolução que nunca venceu, um culto à própria derrota.
E essa mentalidade não se restringe às margens da sociedade. Ela está institucionalizada. Está na política, na polícia, no judiciário. O Estado que deveria proteger, reprime. A justiça que deveria garantir direitos, pune. A violência não é um erro do sistema; ela é o próprio sistema. Aqui, as instituições não servem ao povo, servem à manutenção da truculência. O que deveria ser ordem virou opressão. O que deveria ser segurança virou ameaça.
Mas o pior de tudo é perceber o quanto essa violência contamina todas as relações. É impossível viver aqui sem carregar essa dureza para a vida pessoal. As amizades são pautadas na rivalidade. As relações de trabalho são um eterno jogo de dominação. Até dentro de casa, as interações são permeadas por essa aspereza sufocante. Crescemos ouvindo que “tem que ser forte”, que “moleza não leva ninguém a nada”, que o mundo é um lugar hostil e que a única forma de sobreviver é ser mais hostil ainda. E assim seguimos, arrastando esse peso, normalizando esse inferno.
Foi viajando que percebi o quanto este Estado Brasileiro é tóxico. Longe daqui, vi que a vida pode ser mais leve. Vi que em outros estados do Brasil, em outros países, existem lugares onde as pessoas se tratam com maior gentileza, que um desacordo não precisa virar briga. Que um erro não precisa ser punido com humilhação. (Não que não existam lugares igualmente ruins ou até piores – como é o caso das grosserias que observei em países ditos de primeiro mundo como Áustria, Suíça ou Portugual). Mas foi nesses lugares, muitos de extrema humildade, que percebi ser possível existir em um espaço público sem estar sempre pronto para se defender, sem precisar medir cada palavra por medo de represálias. Foi olhando para fora que percebi que este é um péssimo lugar para se viver. E é isso que me desespera.
Porque a vontade de ir embora hoje não é apenas um desejo, é um grito de socorro. É um pedido para respirar. Eu não quero mais viver nesse lugar onde o conflito é a regra, onde a tensão está em cada esquina, onde o simples ato de existir exige uma casca grossa insuportável. Eu quero distância dessa guerra cotidiana, dessa paranoia coletiva, desse ambiente de hostilidade perpétua.
Aqui, tudo é um campo de batalha. A política é guerra. O futebol é guerra. O trânsito é guerra. O convívio social é guerra. E eu não quero mais viver em guerra. Quero bater o pó das botas, sacudir o peso dessa terra tóxica dos ombros e partir sem olhar para trás. Por que o que me espera aqui? Mais uma década de exaustão? Mais uma vida inteira de desconfiança, de brutalidade, de agressão velada ou explícita?
Até quando? Até quando essa cultura de imposição pela força será aceita como inevitável? Até quando vamos confundir respeito com temor, autoridade com brutalidade? Até quando essa gente continuará se enganando, se olhando no espelho e vendo um vencedor, quando tudo o que reflete é a derrota de bombacha?
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